Minha primeira vez

Por que sempre que falamos em “primeira vez” nossa mente pega o atalho e instiga-nos a pensar em sexo?
Como se fosse a única inauguração digna de relevância, como se fosse o único ritual de passagem que marca. Eu tive primeiras vezes inesquecíveis sem precisar desnudar-me.
Pela vida, há tantas “primeiras vezes” que a gente nem se dá conta, até o momento que tornam-se ralas e quiméricas. Isso é o primeiro passo para uma existência vegetativa, a qual respira só por aparelhos da rotina.
É aí que mora com endereço fixo o perigo, da gente ficar zanzando pelos dias sem nos darmos conta da preciosidade de cada acontecimento, seja ele inaugural ou findo. A gente cria uma membrana espessa que veda a percepção do nosso entorno, assim como fica presos a hábitos acorrentados, os quais não provocam mais surpresas.
Pois bem, que a gente possa mostrar as papilas gustativas, aquela comida nunca provada, experimentar assistir a uma peça alternativa de teatro, matricular-se numa aula de dança (mesmo tendo dois pés esquerdos), aprender a nadar, ir a um lugar frio nunca visitado, apesar de gostar do calor ou, fazer uma tatuagem.
Sei lá, qualquer coisa que traga coisa fresca, com cheiro do novo para aguçar e ressignificar as emoções, afinal mora em todos nós alguma virgindade.
A vida não aceita o desaforo da postura estática, ela quer ser desafiada e desvirginada quantas, tantas e inúmeras vezes forem possíveis, ela não quer que sejamos celibatos da gente mesmo.

  • curti (0)

Sem discurso, por favor!

Em uma roda de conhecidos deixei escapar que estava cansada… Uma das pessoas logo iniciou um discurso ensolarado, que tudo tem seu lado bom, que, se estou cansada, pelo menos tenho um trabalho blá blá blá.
Não havia incoerência na sua fala. Mas talvez no momento, eu quisesse apenas um pouco de empatia, pois não sou de me queixar, ainda mais em público. Se falo é porque estou apenas transbordando… e só.
Não acredito nas almas com aparência efervescente e permanente. A felicidade crônica é uma maquiagem que sai no banho.
Há um monte de coisas que dão errado. Têm dias que a vida tira o tapete, nos tira do sério, a gente leva uns trancos e quer entrar para um casulo pois está puta da cara mesmo. A vida é colorida mas tem pontas ásperas as quais machucam. Não trata-se de um estado catatônico de depressão, ou pessimismo tônico. Mas até na tristeza há normalidade, e nem por isso necessitamos de todas as Sertralinas indicadas, apenas precisamos saber lidar com as nossas travessias, sem drama, sem disfarce. Ou audácia de quem nunca pifou.
É tão humana a fragilidade, só a maturidade ensina-nos a quebrar os muros da valentia de nosso território, a ruir as imponentes torres e deixar entrar os medos, entender com tranquilidade, querer a doçura, não disfarçar as angústias e esperar pelo aceno da felicidade. Simples assim. Sem discurso, por favor!

[ … Esse texto tem tudo a ver com o que eu penso, porque detesto quando quero apenas comentar um assunto e a pessoa vem com a consultoria pronta.]

  • curti (0)

Ahhh as fofocas

Nunca fui santa… confesso que já me esbaldei em ouvir e até dar pitacos em fofocas – os tais “bafos”. Mas com a maturidade quase batendo na minha porta, com a avaliação do que realmente é essência e entendendo que, o julgamento é um artefato démodé (fora de moda), já não importo-me mais com os tititis.
Uso o silêncio como disfarce, até palpito, aprendi; ouço, e logo trato de armazenar no “setor das inutilidades” do meu sistema nervoso central, para que o assunto seja sepultado ali, já que o corpo não está presente. Enterro o que não me diz respeito, por respeito!
Aquela famosa máxima “Falem mal mas falem de mim” ao meu ver, só é útil as pessoas que não tem um bom monólogo consigo mesmo e que precise e goste de ser assunto de outrem. Prefiro a frase “todos temos esqueletos nos armários”, então, bisbilhotar a vida e ainda comentar os sofrimentos alheios sem saber os reais motivos e conflitos (sim, porque na maioria há dores) não é só perda de tempo – é querer esconder os seus! É falta do que ler, de observar, de ir a novos lugares, provar novos gostos, novas emoções, novos objetivos e poder dividir isso numa boa conversa, pois além de inócua e sem propósito, a fofoca é cafona.

  • curti (2)

Dia das Mães

imagem via

“Amor de mãe é dislexo”

Dramáticas, incongruentes, exageradas, chantagistas e profundas. Pense em qualquer mãe que não tenha ao menos duas dessas atribuições.
Mãe tem dislexia ao amar, troca letras, troca o mundo, ama torto, ama cheio de clichês e ama tentando acertar.
Mãe que é sempre dócil e gentil é anomalia, pois as “normais“ precisam de Rivotril ou de terapia. Ser mãe é esporte radical em queda livre e frio na barriga.
Lê nos livros e prega aos outros de forma resoluta que filhos precisam de asas, mas no fundo, de maneira egoísta quer os filhos no ninho para alimentar. Reza quando estão longe, quando estão perto também.
Mãe abre mão, abre a carteira, abre exceção, mas não esquece, arquiva, pois um dia, dá um jeitinho de lembrar… Pois mãe não cobra à vista, parcela! Adora a solidão … Mas sente a saudade em tempo integral.
Deus cuida das mães de longe, porque se dormisse no quarto ao lado já teria ido estudar fora ou se mudado para uma ONG. Mas com toda certeza … Ele sempre antes de dormir faz uma oração e nos diz: “Te amo, pois a criei exatamente assim, cheia de defeitos para ser um ser que ama de jeito único e (im) perfeito.”

  • curti (4)

No improviso dos instantes

Evite falar com estranhos, por outro lado, fale com gente que não conhece para fazer novos amigos. Às vezes a gente encontra pessoas interessantíssimas.
Economize, contudo, gaste com o que ou com quem faça seus olhos brilharem…
Crie raízes… Ahhh mas permita-se ao anonimato em alguma outra cidade ou país . As viagens são verdadeiras formas de despertencimento.
Lugares ermos são perigosos, porém locais vazios são apropriados para quando se precisa da quietude.

Oh Wonder – Without You

  • curti (1)

Viver

foto 06/04/19, Erlaaer Straße

Eu já bebi vinho caro ruim, outros baratos, os quais, decantaram o momento.
Já ouvi gente inteligente pregando asneiras. E a ignorância ensinar.
Vi o que deveria ser precioso, ser ostentado.
Já senti o requinte nas coisas simples …
Já percebi a hipocrisia na bondade. E na bondade, o que surpreende.
Já senti o silêncio falar. E o que fala, nada dizer.
Já vi a obviedade no mistério.
Já vi tanto, que tenho apurado meu instinto sensorial a assimilar ao invés de rotular.

  • curti (1)