Eu não passarinho

Convencionou-se que pessoas de boa índole gostam de natureza. Bom, eu gosto muito de natureza, ainda que não seja a candidata ideal para me exilar num sítio ou numa praia deserta por um tempo que exceda o período de férias. Além disso, tenho uma relação pouco amistosa com passarinhos, logo com eles, os representantes oficiais da vida ao ar livre. Se o quesito for esse, não sei se minha índole poderá ser bem avaliada.
Quando criança, os contos de fada tentaram me convencer da prestatividade dos passarinhos. Quando a Gata Borralheira resolveu que iria ao baile no castelo do príncipe mesmo sem ter um trapo decente para vestir, foram os passarinhos que a ajudaram a se transformar numa Cinderela, providenciando tecidos coloridos e customizando as peças. Eles praticamente inventaram a profissão de personal stylist.
Eu adoraria acordar com o canto dos pássaros às quatro da manhã se tivesse que levantar para ordenhar vacas, cortar lenha e assar o pão em minha casinha romântica instalada no cenário idílico do campo, mas não levo uma vida romântica: me deixem dormir.
Pena que eu não seja assim tão nobre. Só gosto de passarinho em estampas, selos, quadros e fotos (mentira, mentira, nem isso, só estou querendo angariar sua simpatia). Índole? Nota 7.

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A favor do vento

Desisti de trazer para perto quem prefere ficar afastado.
Há muito que não espero que os outros ajam conforme eu gostaria.
Não aguardo favores, elogios ou adesões.
Não fico em estado de alerta para flagrar quando pisam na bola comigo – percebo quando pisam, mas procuro não estressar com isso. Nem sempre consigo, mas tento. E, por fim, perdoo, não por ter parentesco em primeiro grau com Nossa Senhora, mas porque dá menos trabalho.
Digo não com a mesma facilidade com que digo sim. Cumpro tudo aquilo que eu exigiria dos outros se ainda tivesse disposição para fazer exigências. Agora só exijo de mim, e ainda assim, pouco.
A minha porção rigorosa e mesquinha existe, a briga é interna e não muito violenta: não me aplico golpes baixos. Meus demônios são inimigos adestrados.
Talvez, para alguns, uma vida sem tormentas diárias produza um vazio impossível de suportar. Cada um, cada qual. Eu joguei a toalha: o que não suporto mais nessa vida é peso.

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Pino Donaggio – Lo che non vivo

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