Minha primeira vez

Por que sempre que falamos em “primeira vez” nossa mente pega o atalho e instiga-nos a pensar em sexo?
Como se fosse a única inauguração digna de relevância, como se fosse o único ritual de passagem que marca. Eu tive primeiras vezes inesquecíveis sem precisar desnudar-me.
Pela vida, há tantas “primeiras vezes” que a gente nem se dá conta, até o momento que tornam-se ralas e quiméricas. Isso é o primeiro passo para uma existência vegetativa, a qual respira só por aparelhos da rotina.
É aí que mora com endereço fixo o perigo, da gente ficar zanzando pelos dias sem nos darmos conta da preciosidade de cada acontecimento, seja ele inaugural ou findo. A gente cria uma membrana espessa que veda a percepção do nosso entorno, assim como fica presos a hábitos acorrentados, os quais não provocam mais surpresas.
Pois bem, que a gente possa mostrar as papilas gustativas, aquela comida nunca provada, experimentar assistir a uma peça alternativa de teatro, matricular-se numa aula de dança (mesmo tendo dois pés esquerdos), aprender a nadar, ir a um lugar frio nunca visitado, apesar de gostar do calor ou, fazer uma tatuagem.
Sei lá, qualquer coisa que traga coisa fresca, com cheiro do novo para aguçar e ressignificar as emoções, afinal mora em todos nós alguma virgindade.
A vida não aceita o desaforo da postura estática, ela quer ser desafiada e desvirginada quantas, tantas e inúmeras vezes forem possíveis, ela não quer que sejamos celibatos da gente mesmo.

  • curti (0)

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