Aniversário da minha mãe

Acordei cedo, fui almoçar fora.
Unhas roídas e sem esmalte, o dia passou lentamente.
Para mim 19/06 continua sendo um dia de homenagem.
Em pensar que lamentavelmente só passei a entendê-la melhor depois de mais velha.
Você dizia que só quando perdemos nossa mãe é que entendemos como ela faz falta;  ela perdeu a dela bem cedo…
Na sua infinita alma doce, com sua sabedoria popular, sabia de tudo. Antes de mim já sabia o que era essa saudade e tentava explicar assim. Às vezes não conseguimos  dimensionar a presença, sem antes conhecermos a ausência.
O melhor das pessoas sempre fica dentro de nós, enraizado, ainda mais quando somos continuação delas.
Ainda bem “caímos” na mesma família, não precisei percorrer banco de dados para achá-la, porque Deus me presenteou, e eu agradeço por isso.
Sei que vou morrer, mas vou sentir falta das minhas filhas… eu também sentirei a sua até sempre.
É com uma saudade imensa das nossas conversas que escrevo. E como disse seu genro, manda uma cartinha hoje pro céu…

  • curti (2)

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço –
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nelas eternamente,
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos

O que dizer de Fernando Pessoa… um dos meus poetas favoritos.

Skank - Dois Rios

  • curti (0)

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto.
A partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela – silêncio perpétuo.
Extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais.
Mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear.
O problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

O autor foi um escritor, poeta, crítico literário e professor brasileiro, e é de Curitiba (onde nasci). A foto tirei em 12/jun/15 dentro do trem.

Let it go

  • curti (1)

Envelhecimento

“Um vídeo impressionante onde um grupo de artistas maquiadores envelhece um casal dos seus 20 aos 90 anos de idade. É tão impactante que inspira reflexão.
Kristie e Tavis aceitaram participar de uma sessão de maquiagens para envelhecer. A ideia dos produtores era que o casal visse como eles poderiam ser com 50, 70 e 90 anos de idade.”

  • curti (2)

“Domingo, pé de cachimbo”

“Hoje é domingo, pé de cachimbo.” Se você não estranhou a frase anterior é um ótimo sinal. Você teve uma infância maravilhosa. Não estou aqui para destruir as boas lembranças de ninguém, mas, pense bem: você já viu um pé de cachimbo? Nem eu, mas procurei durante toda a minha infância. Vivia perseguido pelo tal pé, que buscava em todos os quintais sem jamais encontrá-lo. Os quintais insistiam em me desmoralizar e me fazer mentiroso. Neles eu encontrava pé de tudo quanto é coisa: de caju, de banana, de jambo, mas nunca o mais valioso de todos: o sonhado pé de cachimbo.
Cresci com a memória da minha incompetência em achar um pé de cachimbo. Vivi feliz com ela até o exato momento em que um amigo me revelou o que para mim seria uma tragédia: “Hoje é domingo, pede cachimbo”. Pede? Como assim? Maldito domingo. Maldito domingo que pede cachimbo. Que pede o sentar-se descansadamente com o aparato de madeira, osso ou sei lá o que mais entre os lábios. Pede, do verbo pedir, presente do indicativo, terceira pessoa do singular. O domingo pede cachimbo. Pede cachimbo. Por que, domingo? Não podias ter pedido um cigarro? Um suco gástrico? Um chinelo? Por que me traíste? Eu que te amava tanto. Que em tuas manhãs e tardes fazia nada e procurava pés de cachimbo pelos quintais, enquanto o mundo, lá longe, muito longe, se acaba nas insuportáveis intrigas de adultos. Por que me traíste pedindo? Pedindo o miserável cachimbo? Desculpe-me amigo leitor se você agora também se sente enganado, mas não vou carregar sozinho o peso de tamanha desgraça.
Essa história toda provocou em mim violenta reação: retornei indignado e com toda força da minha insanidade, tantas vezes comprovada, à busca frenética do pé de cachimbo. Se alguém achar antes de mim, me avise.
Para mim, hoje ainda é “domingo, PÉ de cachimbo”. E que se dane o outro domingo, o domingo infeliz, que com sua falta de criatividade se arrasta pedindo coisas e destruindo memórias. A vida é realmente bela!

Blog do autor

  • curti (0)

“Chef”

Sinopse: “Depois de perder seu emprego como chef em um famoso restaurante de Los Angeles, Carl (Jon Favreau), para a surpresa de todos, compra um trailer e passa a fazer e vender comida pelas ruas. Cozinhando e conhecendo pessoas, ele redescobre o amor, o entusiasmo pela vida e como a gastronomia pode ser apaixonante.” (via filmow).

E no cinema foi difícil não sentir fome assistindo essa comédia, tipo de história que tudo dá certo: emprego perdido e logo um outro arriscado que vinga; relação de pai solteiro com o filho que é super boa; o filho é uma criança super inteligente e educada… e leve, para se sentir bem, é assim que o descrevo.
“Hoje é domingo, pé de cachimbo”*. Que venha a semana, que venha junho!
(*“Pé de cachimbo” é uma expressão usada errada para quem como eu teve a infância nos anos 70/80, e que significava um domingo legal, divertido. Na verdade a expressão correta é “Hoje é domingo, pede cachimbo”.)

  • curti (1)