“Domingo, pé de cachimbo”

“Hoje é domingo, pé de cachimbo.” Se você não estranhou a frase anterior é um ótimo sinal. Você teve uma infância maravilhosa. Não estou aqui para destruir as boas lembranças de ninguém, mas, pense bem: você já viu um pé de cachimbo? Nem eu, mas procurei durante toda a minha infância. Vivia perseguido pelo tal pé, que buscava em todos os quintais sem jamais encontrá-lo. Os quintais insistiam em me desmoralizar e me fazer mentiroso. Neles eu encontrava pé de tudo quanto é coisa: de caju, de banana, de jambo, mas nunca o mais valioso de todos: o sonhado pé de cachimbo.
Cresci com a memória da minha incompetência em achar um pé de cachimbo. Vivi feliz com ela até o exato momento em que um amigo me revelou o que para mim seria uma tragédia: “Hoje é domingo, pede cachimbo”. Pede? Como assim? Maldito domingo. Maldito domingo que pede cachimbo. Que pede o sentar-se descansadamente com o aparato de madeira, osso ou sei lá o que mais entre os lábios. Pede, do verbo pedir, presente do indicativo, terceira pessoa do singular. O domingo pede cachimbo. Pede cachimbo. Por que, domingo? Não podias ter pedido um cigarro? Um suco gástrico? Um chinelo? Por que me traíste? Eu que te amava tanto. Que em tuas manhãs e tardes fazia nada e procurava pés de cachimbo pelos quintais, enquanto o mundo, lá longe, muito longe, se acaba nas insuportáveis intrigas de adultos. Por que me traíste pedindo? Pedindo o miserável cachimbo? Desculpe-me amigo leitor se você agora também se sente enganado, mas não vou carregar sozinho o peso de tamanha desgraça.
Essa história toda provocou em mim violenta reação: retornei indignado e com toda força da minha insanidade, tantas vezes comprovada, à busca frenética do pé de cachimbo. Se alguém achar antes de mim, me avise.
Para mim, hoje ainda é “domingo, PÉ de cachimbo”. E que se dane o outro domingo, o domingo infeliz, que com sua falta de criatividade se arrasta pedindo coisas e destruindo memórias. A vida é realmente bela!

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